O hype da morte do hype

Acho que todo post falando sobre a “morte” deste ou daquele suporte de conversações sobre um sério risco de derrapar para dentro do pântano da presunção egocêntrica. Mas tem coisas que vale a pena dizer.

Estava conversando no outro dia com a Pata Nardelli sobre a “morte dos blogs” frente ao surgimento dos microblogs. Assunto velho, eu sei. Nem está mais na moda falar disso. Mas não é disso mesmo que eu quero falar. É do hype de anunciar a morte de serviços quando surge alguma outra coisa mais “cool”.

Em 2003, o fotolog.net (hoje fotolog.com.br) bombava de brasileiros descobrindo como era bacana fazer caras e bocas para a câmera e depois partilhar a foto com os amiguinhos. Foi na época uma das grandes ondas da entrada brazuca na rede, de mãos dadas com o Orkut que surgiria pouco depois. Algum tempo depois, havia gente anunciando a morte do fotolog.net. Mas ele não morreu. Simplesmente começou a ser usado só por quem realmente curtia aquilo. O que morreu foi o hype, e não era mais tão “cool” ser fotologger.  Os hype-pilgrims deixaram o flog pra trás e foram atrás do próximo hype, e foi só.

A mesma coisa pode ser dita sobre os blogs, e em breve poderá ser dita sobre o Twitter e sobre quaisquer serviços que forem “agraciados” com o hype no futuro. Um dia o hype acaba, os “moderninhos” que começaram a usar o serviço só porque era moda acabam cansando e indo embora em busca de outra coisa “cool” pra usar, e o suporte começa, enfim, e descobrir seu verdadeiro lugar no espaço digital.

Quem falou da morte dos blogs pode até não ter percebido que estava falando uma grande asneira. Mas se quiser colocar a mão na consciência, pode dar uma olhada no Global Voices Online (ou no Global Voices em Português) e descobrir algumas coisas para os quais os blogs realmente servem, sem hype nem afetação.

E quanto a morte dos blogs frente aos microblogs. Bem… Quem tem algo a dizer não pode viver só de 140 caracteres, né? Creio que, no máximo, a blogosfera se viu livre de um monte de gente que poderia, no mínimo, falar em menos caracteres o que tinha a dizer. Bom para todos.

Os blogs irão existir enquanto forem úteis para quem escreve e para quem lê. Podem mudar, como tudo muda, como os microblogs também já estão mudando, mas por sorte, apesar dos passos para trás, cedo ou tarde a gente caminha para frente e leva consigo aquilo que nos serve para alguma coisa. E os blogs, meu amigo, são uma das coisas mais úteis que surgiram na internet.

O que morre é o hype.

E é por isso que eu ignoro solenemente qualquer serviço que seja muito festejado.  Só o tempo dirá se servirá para alguma coisa, ou se vai cair no esquecimento. Quem se lembra hoje do Friendster? Eu só me lembro que era quase tão chato quanto o Orkut, mas não tinha um Google por trás para convencer todo mundo de que era bacana estar lá.🙂

5 Respostas to “O hype da morte do hype”

  1. cara, eu ja tinha tido a mesma conversa com outras pessoas sobre essas bandas ou artistas que são ótimos quando é só aquele seu coleguinha cult ou indie que curte, mas quando a porra do artista consegue fazer fama com o trabalho elogiado, aí é um lixo, não é bom, porque “ta pop demais” – detesto isso, na boa e tb detesto a mesma onda na internet. gostei do post. bj

    • Pois é. Dentro ou fora da rede, parece-me que muitas pessoas estão bem pouco conscientes das tendências que “controlam” seus gostos e interesses. Não é novidade nenhuma que não gostamos de algo “simplesmente por que gostamos” — há sempre uma série de fatores sociais envolvidos. O problema é quando estamos não só alheios a estes fatores, como também seguimos que nem ovelhas alguns ditadores de moda conscientemente ou inconscientemente proclamados por nós. Acima de tudo, é um tanto ridículo quando nossa percepção de qualidade/utilidade de algo (ou até mesmo alguém) é completamente anulada por conta destas influências sociais.

      Trocando em miúdos: é bem ridículo ver as pessoas caindo de novo e de novo nas esteiras do hype, sem nenhuma reflexão a respeito do quê, e de porquê, gostam disso ou daquilo ou fazem isso ou aquilo. =)

      Abraço do Verde

  2. esses saudosismos de “tal coisa acabou para sempre” são tão ingênuos. as coisas se transformam e há o que se sustente por muito tempo – tomando novas formas tb. bem falada essa diferença entre o que é moda e o que abraçamos como paixão mesmo (ainda que nasça de uma moda, ainda que toda vontade seja socialmente construída, fazemos a sutil escolha de abraçar algumas e outras não.)

    • Sim. Há um bocado de ingenuidade e de falta de visão perspectiva no discurso de “isso acabou”, e até mesmo no discurso do que é “novo”. Nosso mundo (o mundo humano) é feito de rearranjos técnicos e sensíveis. E por cima disso, há uma grande camada de outros arranjos — estes midiáticos e sociais — valorando estes arranjos e rearranjos sensíveis. Trocando em miúdos: a não ser que enveredemos por um caminho Pirsiguiano, de buscar a qualidade como algo absoluto existente fora do observador e do objeto, ficamos sujeitos à idéia de que nada é inerentemente bom ou ruim, e que tudo é objeto puro, tabula rasa para a valoração social. Mas eu acho que estou me desviando do ponto… heheheh

      Relendo o meu post à luz do seu comentário, me vem à mente algumas idéias. Penso por exemplo que, apesar de todas as explicações exaustivas da psicologia, das ciências sociais e das ciências mercadológicas, ainda pode-se dizer que há mistério no que nos faz gostar de algo. Isso, se partirmos do ponto que pode haver um gostar que não esteja totalmente submetido às doutrinas e vetores do convívio social. Se presumirmos que existe em nós um Eu que pensa e sente, não independente, mais em diálogo com o ambiente físico e social. Se pensamos que existe este ser em nós, podemos acreditar em uma distinção entre aquilo que somos levados a gostar e aquilo que, por outros motivos, gostamos. Podemos até dizer que estes dois “gostares” tem características, durações e naturezas diferentes…
      viu como eu acabo tergiversando?

      Em resumo… percebi também que eu tenho um sério problema com os blogs que o twitter me ajuda, mesmo que artificialmente, a resolver: eu penso demais, eu falo demais, escrevo demais, e todo post acaba consumindo então tanto tempo e cabeça que acabo tendo dificuldade de encontrar tempo (e disposição) para fazê-lo. É por isso que eu tuíto tanto e meus dois blogues estão tão… parados.

      Toda vez que olho para eles, penso que há tanto a dizer e tão pouco tmepo para parar e escrever. Aí eu tuíto, e me dou por satisfeito…

  3. […] balde e o conta-gotas… Enquanto respondia ao comentário da Carla neste post aqui, me ocorreu que eu tenho um problema de dinâmica (que talvez partilhe com boa […]

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