O anoitecer de uma Democracia que nunca foi

Sei que sou verborrágico, portanto vou direto ao assunto. O Brasil vive hoje na iminente ameaça de duas possíveis ditaduras. Uma delas é fascista, vertical ao extremo, uma proposta silenciosa de retomada do país pelas velhas forças aristocráticas que o governaram desde sua invenção. Outra delas tem contornos populistas, o que a diferencia da primeira, e se apóia na defesa dos interesses das maiorias desvalidas — às quais convincentemente defende — mas com a mão pesada e olhos míopes dos populistas. Às duas é comum o caudal de rabos presos e a revoada de oportunistas que nada de positivo desejam ao país. As gralhas do poder, tentando alcançar um pouco do espaço na escolha dos destinos da nação que deveria pertencer a todos. Apesar da absoluta falta de real programa de governo de ambas as partes, há subjacente ao circo midiático e de redes sociais promovido por ambos, dois projetos de país relativamente claros. E nenhum dos dois passa sequer perto de qualquer coisa que lembre uma Democracia.

Não é novo o embate (ou promíscuo conchavo), com raras alternâncias, de forças oligárquicas no governo deste pobre país rico. Somos um país inventado pelas oligarquias, com o apoio e agrado das oligarquias de países mais antigos. Mas isso pode ser dito de qualquer país. Países e governos são invenções oligárquicas, de poucos que se arrogam o direito de decidir por todos. O mero fato de alguém decidir que todos estes quilômetros de terra e gente são uma só coisa, governada por um só grupo de pessoas, falando uma só língua, já é um delírio que só poderia advir de uma aristrocracia. São eles os que acreditam que nasceram com o direito de decidir sobre a vida alheia, e ser por todos servidos. Mas o que isso tem de novo? Nada. Nem mesmo estas palavras são minhas, ou sequer novas. Mas elas tem tudo a ver com o anoitecer de nossa Democracia que nunca foi.

Nunca na história deste país houve real e honesto interesse em se debater qualquer tema com a população. Pelo contrário, até mesmo aqueles que mais se orgulham em representar o povo tem medo de dar voz ao povo.  O que é de se admirar, pois não vejo o que poderiam temer, afinal a própria população — nós! — aprende desde cedo que sua opinião não faz diferença. Você se lembra da primeira vez que discordou do seu professor do ensino fundamental, ou de um policial militar? Nem sequer acreditamos realmente no poder de nosso voto, quanto mais naquela idéia romântica de que elegemos alguém que vá nos representar. Cá entre nós… você já se sentiu representado realmente por algum político que elegeu? Pode fazer algo a respeito quando ele não o representou? De que serviu, afinal, seu voto e sua voz até hoje, exceto quando algum grupo empoderado quis usá-lo?

Não, meu amigo, nunca na história deste país houve real interesse por parte daqueles que encabeçam o Estado em ouvir-se o povo que finge-se representar, embora muitas pessoas dentro deste governo até tenham tentado fazê-lo. Mas muitas vezes confundiu-se entrevista com debate ou se usou a voz do povo que se pretende estar representando para apoiar idéias que vieram de cima, ou ao menos foram apropriadas e adequadas às agendas políticas do grupo dominante. Até mesmo quando parte do próprio governo o interesse do debate, a participação da população é débil e segmentada — como pudemos observar nas recentes consultas públicas. Estamos à beira de duas possíveis ditaduras, e não apenas porque há gente querendo mandar — isso sempre tem, em qualquer lugar — mas porque estamos como sempre dispostos a obedecer, e delegar nossa vida ao Estado ou a um grupo político, já que a gente acha desde pequeno que não é bom o bastante pra cuidar dela… e muito menos do nosso país. Em um país em que o cidadão parece gostar de ser tratado como criança por seu governo e pelos jornais ou blogues que lê, não dava pra esperar muito mais que isso. Mas essa criança aqui está preocupada com as maluquices do papai.

Enquanto boa parte de nossa população politicamente ativa, quiçá pensante, está ocupada demais tentando eleger seus candidatos — alguns até vagamente conscientes de que estão alimentando a fera que um dia poderá devorá-los — eu fico aqui pensando se não há ainda um outro caminho. Será que vamos precisar mesmo passar por mais uma ditadura para nos libertarmos de nossa ilusão viciada de Estado-papai e de nossa conformidade indolente? Será que ninguém percebe que não existe comunicação governamental — apenas progapanda governamental, unilateral e enviesada — assim como não existe imprensa livre no Brasil, mas tão somente veículos de propaganda ideológica a serviço desta ou daquela oligarquia? Será que ninguém percebe que em vez de debate e diálogo temos, como sempre tivemos, palavras de ordem gritadas tão alto que inviabilizam qualquer conversa entre pessoas razoáveis? Estamos gritando na frente do muro do palácio e acreditanto que alguém (se) escuta. Será que eu estou falando sozinho quando aponto para a absoluta incompetência gerencial de alguns setores de nosso Estado — que não são problemas deste ou daquele governo? Será que não percebemos que nem o micro-Estado liberal da lei do mais forte, nem o macro-Estado soviético e fisiológico do populismo, dão minimamente conta de respresentar nosso povo tão diverso deste país inventado, justamente porque esse povo não foi educado para ser representado, e sim governado? Não percebem? Ou sou eu que estou ficando maluco?

Nosso Estado foi criado e construído para mandar, e a Ditadura é o ápice de sua eficiência. Foi feito para governar de cima um país grande demais para se enxergar, diverso demais para se liderar. Se quisermos ter um dia uma Democracia, não é este ou aquele governante que vai resolver o problema. Vamos precisar de outra concepção de Estado, quem sabe de outro conceito e delimitação de País… ou quem sabe de nenhum dos dois. Para além das crenças anarquistas, quando olho para a política brasileira, fica óbvio que nosso destino sempre foi e sempre será a Ditadura, seja ela do poder econômico ou da força das armas (que é sempre empunhada também pelo poder econômico). Manda quem pode, obedece quem tem juízo, dá pitaco quem tem voz… e que se foda o resto. A única saída, depois de se perceber que todo o sistema é viciado e irredimível, deve estar na busca de algo que seja realmente novo. O que é, eu não sei, mas sei que não tenho mais fé alguma no que vejo na minha frente hoje.

Eu não tenho respostas, mas achei importante partilhar minhas inquietações. Ao menos hoje temos ESTE direito, e isso tenho que reconhecer. Quem sabe um dia aprendamos a governar, e alcancemos também este sagrado direito, livres das ilusões que nos foram inculcadas por 2000 anos de absoluta estupidez.

6 Respostas to “O anoitecer de uma Democracia que nunca foi”

  1. EI Duende
    Um texto triste, de tão real. Essa crueza tempera com a acidez o sarcasmo de vários conhecidos que sentem que (já) está tudo perdido mesmo, então é melhor entregar-se à maioria de vez e fingir que não é nada de mais o fato das nossas vidas não serem totalmente nossas.
    É sempre bom lembrar. 🙂

    • É… foi um texto daqueles escritos pra “tirar a coisa do meu sistema”. Precisava colocar essa angústia para fora. E na atual configuração, creio que não há mesmo uma real solução.

      Por outro lado, eu sempre creio no renascimento depois do colapso. Logo, esta caminhada rumo ao abismo me dá uma suave esperança de que algo de bom pode vir depois que chegarmos ao Kali Yuga de nossa atual era governamental.

      Eu confio nos Deuses, apesar do senso de humor deles.

  2. Você é parente do Homem do Subsolo?
    O pior da prosperidade é a ilusão da melhora. Já tão achando que o Brasil é potência.
    Infelizmente, a alternativa da desilusão só serve à plutocracia em vigor.
    Há que se batalhar aos poucos, remando contra a maré.
    Até escolhendo entre o chapa-branquismo e o regressismo.
    Foda que hoje nem é charmoso ser de esquerda, né? Não dá pra comer ninguém. Porca Miséria.

    • Para a primeira pergunta, em poucas palavras… ou só uma: Não.

      De resto, posso concordar, às vezes. Mas por vezes também é importante discordar.

      E mesmo perdendo o charme, a “Esquerda” ainda atrai mais gente deslumbrada do que lhe é saudável. E talvez seja este o problema. As pessoas não entenderam que o jogo é Civilization, e não The Sims.

  3. […] This post was mentioned on Twitter by Eduardo Antonio, Eduardo Antonio. Eduardo Antonio said: Belo e melancólico texto sobre @danielduende. http://bit.ly/9RDzNk Mas só leiam depois do dia 3/10 […]

  4. […] de razão — por outro lado proibir manifestações é o último passo antes de se instaurar uma ditadura. Acho importante que todos mantenham isso em mente, acima da fé cega e estúpida em qualquer […]

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