A crença e a suspensão de descrença

Hoje, respondendo a mais um cristão incomodado com as críticas que fazia a seu Papa em meu já encerrado blogue Alriada Express, me lembrei de um post que comecei a escrever certa vez  e nunca terminei. Tentei resgatar este post aqui,  não em sua (verborrágica) literalidade, mas ao menos em essência (e creio eu, uma essência bem mais enxuta).

Já observaram a forma como, para a maioria das pessoas, a fé toma a forma de uma cegueira seletiva? Calma, eu explico. A maior parte das pessoas (e eu posso estar aqui muito bem falando também de mim e de você) parecem confundir crença com cegueira quando se alinham — ou afiliam — com esta ou aquela Instituição Religiosa ou Política (duas “coisas” que no fundo são quase a mesma coisa). Ao mesmo tempo que se tornam exageradamente bem dispostos a aceitar quaisquer afirmações feitas pela instituição, com pouco ou nenhuma crítica a respeito de seu conteúdo, estas mesmas pessoas parecem impermeáveis a quase qualquer crítica ou evidência desabonadora a respeito de sua(s) instituição(ões) de escolha.

Me vem à cabeça dois exemplos sempre presentes no mundo como o observo: o dos cristãos semi-engajados (do tipo “vou à missa e falo bem da Igreja, logo sou cristão”) e os membros de partidos políticos pretensamente alinhados com a mudança, como é o caso do PT e do PCdoB. Nos dois casos, é comum vê-los repetir — aparentemente sem grande reflexão — os éditos e editoriais de sua mãe Igreja (que se aplica aos dois casos), e quando questionados a respeito, defendem-se (e à sua Igreja) com um leque depenado de não-argumentos. Tem pouco a dizer, pois pensaram muito pouco no que estão dizendo. Afinal, por que refletir sobre aquilo que lhes foi dito pela instituição à qual amam?

Ao mesmo passo, quando frente a evidências desabonadoras — como o caso dos milhares, talvez milhões, de casos de violência sexual cometida contra crianças por padres católicos ou a franca decadência ética dos quadros de seu partido (que se tornou um verdadeiro grileiro de cargos públicos) — estes bem intencionados crentes costumam dar respostas evasivas vagas, se é que dão alguma resposta, e rapidamente mudam de assunto — frequentemente rumo a um ataque ao interlocutor. Não o fazem por mal. Deve doer um bocado (de fato, eu sei que dói) ter que ser confrontado com a sombra daquilo que tem como bóia de salvação em meio ao caos desta nossa decadente civilização.

Mas por que é que as pessoas agem assim? Fico me perguntando, e me furto a fazer especulações psicologísticas fúteis, ou a simplesmente jogar mais esta na conta da falta geral de erudição e reflexão das pessoas. Seriam respostas tão fáceis quanto dizer que eu não sou cristão (ou Petista) porque não vejo a luz e o amor de Deus em minha vida. Tenho, por outro lado, a impressão de que esta crença que anda de mãos dadas com uma suspensão de descrença e uma cegueira seletivas tem muito à ver com a maneira como as pessoas estruturam a sua própria concepção de crença e de mundo.

Certo e errado, nós e eles, bons moços contra os infiéis ou simplesmente os malvados — vivemos chafurdados no maniqueísmo fácil das Igrejas e das redes de televisão. Crer, para muitos, é escolher lados, é afiliar-se. Seu discurso é a sua carteirinha de membro, e sua padronização é item fundamental para o pertencimento. Ou você acredita em Deus ou é ateu, ou é “de direita” ou “de esquerda”, ou está com eles ou contra eles. A falta de nuances no pensamento das maiorias é tão escandalosa que cedo ou tarde vamos acabar tendo que abolir o cinza para evitar confusão na cabeça das pessoas que só enxergam preto e branco. E desta forma, em consequência também do tipo de interações políticas que se constroem em cima destas bases maniqueístas, fica muito difícil enxergar com clareza que tudo tem vários lados, que não há verdades (nem mentiras) absolutas, e muito menos um caminho “certo” a se seguir e esfregar na cara dos infiéis que insistem nos caminhos “errados”.

Em resumo, o mundo não é tão simples como diz o Jornal Nacional. Mas para alguns, esta complexidade é por demais perturbadora. Creio é que para isso mesmo que muitas destas pessoas mergulham a cabeça na areia destas instituições. Porque elas prometem respostas simples (demais) a um custo que parece barato — o do não questionamento. Que lindo seria se a Igreja ou seus correlatos políticos em todo o espectro pudessem trazer ao mundo o reino dos céus cristão (ou proletário) que prometem a seus fiéis. Quem dera esta fosse ao menos a intenção deles. Mas as hostes dos fiéis dispostos a não questionar não tem uso nenhum para a busca de um mundo melhor. Servem, isto sim, para garantir os interesses dos líderes destas instituições que — estes sim — pensam muito bem no que estão fazendo. Quando a crença significa aceitar tudo que uns te dizem e nem pensar no que dizem “os outros”, você está prontinho para servir. Sinto muito, mas eu com meus defeitos tenho dificuldade em não achar que você é um idiota por isso.

Um fato que prova a minha hipótese é o de que ao dizer estas coisas, nunca faltaram pessoas que vieram afirmar que sou Ateu (e não sou. sou Pagão fervoroso, porém não institucionalizado, se você não sabe) ou que sou “de direita” ou só um “agitador”. Em suma, um post como este raramente chega a ser lido até o final pelas pessoas às quais se refere. E se o é, é apenas em busca do botão de comentários para que possam dizer o quanto sou “ignorante em relação à beleza da vida em Cristo/Dilma”.

Meu amigo e minha amiga, a crença de um homem/mulher é a piada de outro, e não é a toa. Discutir crença é inútil e vão. Mas se a sua crença te torna cego ao mundo no qual você vive e ferramenta das forças que só estão fodendo com ele, se faz necessário discutir não o que você crê — mas que diabos você tá fazendo com o mundo em que eu também habito, goste você disso ou não. Cada um no seu quadrado, mas se não quer brincar então não desce pro play.

Em tempo. Mentir e esconder criminosos é crime. Defender instituições que fazem isso é, no mínimo, ser cúmplice delas. Pense nisso.

P.S. E eu creio em todos os Deuses e em todas as forças. Mas eu não confio e não gosto daquelas que se prestam a destruir o que é de todos para construir propriedades para poucos, ou que se prestam a atacar uma raça, um gênero, uma espécie, para beneficiar outra — a sua. Deploro de qualquer Deus que seja usado como desculpa para a exploração do sofrimento humano e não mate quem o fez. Deploro de qualquer Religião que não permita questionamento. Deploro de qualquer sacerdote que se beneficie de seus dons ou conhecimento para explorar outros seres humanos de qualquer fora.  E deploro mais ainda àqueles que trabalham cegamente ou não em seu nome e em nome dos interesses dos seus em detrimento dos interesses da Terra e da Vida.

10 Respostas to “A crença e a suspensão de descrença”

  1. Há quem diga que precisa ver, para crer. E que para saber, tem que conhecer. Por isso, minha perspectiva em relação a estes assuntos é de que crer em Deus é diferente de saber que ele existe. Quem acredita na existência de Deus demonstra não conhece-lo. Pois se você conhece Ele, você SABE que ele existe. Não apenas “acredita”🙂

  2. Por isso mesmo que concordo com você que discutir crença é inútil e vão😉

    • E concorda também que os atos dos homens (e mulheres) motivados ou não por suas crenças são, estes sim, discutiveis? Pois este vem a ser o meu ponto. Não as crenças em si, mas a maneira como as pessoas crêem na medida em que isso impacta sua ação (ou inação) social e política.

  3. Meu objetivo era chamar a atenção para questões como “não obstante você seja desta ou daquela religião ou partido, fechar os olhos para este ou aquele ato criminosos e torpes é igualmente criminoso — o crime da cumplicidade, que não é atenuado pelo fato de você abrir mão do seu senso crítico em nome da crença”.

  4. Parabéns, você expõe seus argumentos muito bem. Gostei muito do seu post, e concordo que há pessoas cegas em relação á isso.
    Eu acredito em Deus, e não porque acho que a população do mundo inteiro veio de Adão e Eva, mas sim porque tem que ter algum motivo pro universo funcionar assim.
    Mas ver meus vizinhos deixarem os filhos raquíticos como estão para comprar carne para o pastor, é demais.
    Mais pessoas deveriam ler coisas como essa.
    Bom, ganhou uma leitora. :3

    • Bem vinda, Tay.

      Eu também acredito que há encantos insondáveis por trás das aparências dos Universos. Como tive o cuidado de explicitar, sou um homem religioso, embora minha religiosidade seja um bocado diferente daquela das religiões patriarcais do Sol e do Leste. Em meu post me dedicava a falar justamente aquilo com o que vc parece concordar: de que as pessoas precisam ter não apenas bom senso, mas também responsabilidade, por aquilo que fazem e aquilo que defendem. Nenhum homem ou mulher pode declarar-se inocente por conta de uma ignorância à qual se entregou conscientemente.

      Abraços do Verde.

  5. […] passo antes de se instaurar uma ditadura. Acho importante que todos mantenham isso em mente, acima da fé cega e estúpida em qualquer partido ou religião […]

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