Zoológicos para o prazer marketeiro, e essa tal economia da atenção

Muito se fala sobre a Economia da Atenção como “A Economia do Futuro” (leia-se, a Economia que é mais cool para aqueles entre nós que já saíram do século XX e tem garantidos casa, comida, lazer e gadgets). Não surpreendentemente, é justamente a nossa atenção um dos grandes alvos atuais dos ataques daqueles que — como eu disse, não surpreendentemente — também integram o topo da pirâmide de haveres daquela velha Economia que falava de dinheiro e propriedades. Para além de um mundo onde 1% acumulam aquilo que tornou-se artificialmente escasso para os outros 99%, vivemos também um momento em que — apesar da difusão de olhares e falantes promovida pela revolução digital — cada vez mais se tenta aprisionar a sua atenção. Mais do que isso, é também um mundo onde depois de descobrirmos que podemos ter voz, temos agora que defendê-la constantemente de tentativas (por parte dos novos e velhos ocupantes do topo da pirâmide) para silenciar-nos ou, pior ainda, aprisionar-nos dentro de um silo onde só falamos com outros prisioneiros.

Se você ainda não entendeu do que eu estou falando, eu estou falando das fronteiras que se erguem à nossa volta dentro da rede enquanto festejamos no salão de festas de redes sociais que foram construídas não para nós — e muito menos por nós — mas pura e simplesmente para nos manter como animais em um zoológico para a visitação de marketeiros e corporações. Mais do que isso, dentro destas mesmas redes sociais tornamo-nos falantes cada vez mais repetitivos, ecoando a nós mesmos. Para além da relativa escassez de produção de conteúdo original — principalmente se compararmos com a primeira metade dos anos 2000, tempos excitantes da explosão da blogosfera em seu sentido literal — o que vemos também é um ecoamento cada vez mais constante das mesmas mensagens e idéias e conteúdos, muitas vezes sem grande reflexão por parte do sujeito que apertou o prático botãozinho de “SHARE” ou “Compartilhar”. E para quem elas estão sendo ecoadas? Em grande parte, para os mesmos ouvintes, nossos companheiros de silo-zoológico-redessocial, que também as ecoam, ou ecoaram aquilo que em breve também iremos ecoar. E toda essa balbúrdia (tweet, tweet, post, post, like, like!) fica ali, contida dentro do silo, fazendo com que qualquer conteúdo original — ou as poucas boas idéias muito ecoadas — fiquem soterradas em um mar de absoluta falta do que dizer/replicar. Em resumo, não há muito o que se ouvir, e mesmo aquilo que valeria a pena ouvir fica preso dentro das paredes do zoológico que montaram à volta da nossa festa. E é nestes silos que investimos grande parte de nossa atenção.

E então chegamos ao nosso ponto: se em um certo momento a televisão era, para quase todos, o altar da atenção frente ao qual ouvíamos diariamente nossos sermões mercadológicos e comportamentais, o que temos hoje é a montagem de um esquema um pouco mais complexo, mas não menos espúrio. Aprisionados em nossa navegação dentro dos zoológicos e das estradas bem sinalizadas da rede, vamos cada vez a menos lugares dentro da Internet, e a cada momento estamos provendo mais informações sobre nós a cada passo que damos. E para que servem essas informações? Para que saibam cada vez melhor do que gostamos, para onde vamos quando acreditamos ter liberdade de caminhar, o que desejamos e o que nos chama a atenção. E para que? Justamente para que sejam cada vez mais eficazes em suas estratégias de… capturar a nossa atenção, seja com produtos de consumo ou simplesmente produtos midiáticos. Resumindo, nos colocam em um zoológico digital, observam nossos hábitos (e essas observações valem muito dinheiro, como você deve saber), e descobrem a melhor maneira nos fazer desejar puxar as alavancas certas.

As redes sociais corporativas são a caixa de skinner do futuro, e os ratos somos nós. E eu nem vou começar a falar neste post sobre o quanto os seus desejos, suas vontades e seus interesses lhe foram muitas vezes incutidos por corporações ou adestradores midiáticos treinados nas cartilhas escritas por quem os observava quando vocês acreditavam estar se divertindo e socializando em liberdade — dentro das grades de sua rede social predileta. A Economia da Atenção é, trocando em miúdos, a ciência de cativar a sua atenção, frequentemente usada para obter a partir de sua atenção o seu consumo ou o seu comprometimento com uma marca, idéia ou grupo de poder. E quem achava essa história de Economia da Atenção muito “cool”, enquanto perdia suas horas na frente do Facebook desejando comprar um Ipad novo, para variar, nem se tocou que era só um ratinho puxando a alavanca de sua caixinha de skinner digital.

E é claro que eu estou errado. Afinal, somos todos tão felizes e realizados…

3 Respostas to “Zoológicos para o prazer marketeiro, e essa tal economia da atenção”

  1. Quem tem acesso aos dados sobre nossas escolhas na internet pode saber mais sobre nossas preferências do que nós mesmos. Assim é possível ofertar algo antes mesmo que seja criado o desejo ou questionamento para se produzir algo original com o próprio esforço.
    É como a mãe/pai que mima e super-controla – “o que vocês querem, meus queridos?”

    • É mais ou menos por aí, meu velho. Mas vai um pouco além. Em um certo nível, eles tem o poder de decidir o que vc vai querer. Eles sabem seus interesses, eles tem sua atenção. Eles te convencem sem que vc perceba que está sendo convencido. Lembra da Patricia falando que nossas vontades e nossas idéias nem sempre são nossas? =)

  2. […] um post do Daniel Duende, e conversei com pessoas com intenções para redes sociais. Estas pessoas me disseram […]

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: