Archive for the Nosso Mundo Category

Partido político não é religião, time de futebol ou marca de console

Posted in Brasil, do Facebook, Nosso Mundo with tags , , on outubro 5, 2012 by Daniel Duende
partido político não é time de futebol, nem escola de samba, nem grêmio associação de boi. Partido político não é a Horda nem a Aliança, não é Beatles nem Stones. Não é Nintendo nem Sony. Partido político não é religião (embora andem se confundindo ultimamente). Partido político não pode nem deve ser amado incondicionalmente, defendido além da verdade e da razão, digno das maiores indignidades em seu nome.

Um partido político é um grupo de pessoas com idéias afins (acredite, a idéia é que eles tivessem idéias!) que se organiza em prol de um projeto de país e de governo (essa coisa que também saiu de moda). Se você defende o seu partido político cegamente, acriticamente, estupidamente, você não me dá escolha: eu vou acreditar que você é cego, acritico e estúpido.

Naomi Klein: Ocupa Wall Street é o movimento mais importante do mundo hoje

Posted in Nosso Mundo with tags , on outubro 11, 2011 by Daniel Duende

Íntegra (ou versão completa) publicada pela revista Carta Maior do discurso de Naomi Klein, proferido na ocupação de Wall Street, que cresce a cada dia. Que sirva de resposta a quem se pergunta “de que adianta ocupar os lugares? de que adianta sair da sua casa e ir pra rua, simplesmente estar lá?”. Com a palavra, Naomi Klein.

“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”. Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo. Leia o pronunciamento de Naomi Klein em Nova York.

Naomi Klein – Commondreams

Foi uma honra, para mim, ter sido convidada a falar em Occupy Wall Street na 5ª-feira à noite. Dado que os amplificadores estão (infelizmente) proibidos, e o que eu disser terá de ser repetido por centenas de pessoas, para que outros possam ouvir (o chamado “microfone humano”), o que vou dizer na Praça Liberty Plaza terá de ser bem curto. Sabendo disso, distribuo aqui a versão completa, mais longa, sem cortes, da minha fala.

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Occupy Wall Street é a coisa mais importante do mundo hoje[1]

Eu amo vocês.

E eu não digo isso só para que centenas de pessoas gritem de volta “eu também te amo”, apesar de que isso é, obviamente, um bônus do microfone humano. Diga aos outros o que você gostaria que eles dissessem a você, só que bem mais alto.

Ontem, um dos oradores na manifestação dos trabalhadores disse: “Nós nos encontramos uns aos outros”. Esse sentimento captura a beleza do que está sendo criado aqui. Um espaço aberto (e uma ideia tão grande que não pode ser contida por espaço nenhum) para que todas as pessoas que querem um mundo melhor se encontrem umas às outras. Sentimos muita gratidão.

Se há uma coisa que sei, é que o 1% adora uma crise. Quando as pessoas estão desesperadas e em pânico, e ninguém parece saber o que fazer: eis aí o momento ideal para nos empurrar goela abaixo a lista de políticas pró-corporações: privatizar a educação e a seguridade social, cortar os serviços públicos, livrar-se dos últimos controles sobre o poder corporativo. Com a crise econômica, isso está acontecendo no mundo todo.

Só existe uma coisa que pode bloquear essa tática e, felizmente, é algo bastante grande: os 99%. Esses 99% estão tomando as ruas, de Madison a Madri, para dizer: “Não. Nós não vamos pagar pela sua crise”.

Esse slogan começou na Itália em 2008. Ricocheteou para Grécia, França, Irlanda e finalmente chegou a esta milha quadrada onde a crise começou.

“Por que eles estão protestando?”, perguntam-se os confusos comentaristas da TV. Enquanto isso, o mundo pergunta: “por que vocês demoraram tanto? A gente estava querendo saber quando vocês iam aparecer.” E, acima de tudo, o mundo diz: “bem-vindos”.

Muitos já estabeleceram paralelos entre o Ocupar Wall Street e os assim chamados protestos anti-globalização que conquistaram a atenção do mundo em Seattle, em 1999. Foi a última vez que um movimento descentralizado, global e juvenil fez mira direta no poder das corporações. Tenho orgulho de ter sido parte do que chamamos “o movimento dos movimentos”.

Mas também há diferenças importantes. Por exemplo, nós escolhemos as cúpulas como alvos: a Organização Mundial do Comércio, o Fundo Monetário Internacional, o G-8. As cúpulas são transitórias por natureza, só duram uma semana. Isso fazia com que nós fôssemos transitórios também. Aparecíamos, éramos manchete no mundo todo, depois desaparecíamos. E na histeria hiper-patriótica e nacionalista que se seguiu aos ataques de 11 de setembro, foi fácil nos varrer completamente, pelo menos na América do Norte.

O Ocupa Wall Street, por outro lado, escolheu um alvo fixo. E vocês não estabeleceram nenhuma data final para sua presença aqui. Isso é sábio. Só quando permanecemos podemos assentar raízes. Isso é fundamental. É um fato da era da informação que muitos movimentos surgem como lindas flores e morrem rapidamente. E isso ocorre porque eles não têm raízes. Não têm planos de longo prazo para se sustentar. Quando vem a tempestade, eles são alagados.

Ser horizontal e democrático é maravilhoso. Mas esses princípios são compatíveis com o trabalho duro de construir e instituições que sejam sólidas o suficiente para aguentar as tempestades que virão. Tenho muita fé que isso acontecerá.

Há outra coisa que este movimento está fazendo certo. Vocês se comprometeram com a não-violência. Vocês se recusaram a entregar à mídia as imagens de vitrines quebradas e brigas de rua que ela, mídia, tão desesperadamente deseja. E essa tremenda disciplina significou, uma e outra vez, que a história foi a brutalidade desgraçada e gratuita da polícia, da qual vimos mais exemplos na noite passada. Enquanto isso, o apoio a este movimento só cresce. Mais sabedoria.

Mas a grande diferença que uma década faz é que, em 1999, encarávamos o capitalismo no cume de um boom econômico alucinado. O desemprego era baixo, as ações subiam. A mídia estava bêbada com o dinheiro fácil. Naquela época, tudo era empreendimento, não fechamento.

Nós apontávamos que a desregulamentação por trás da loucura cobraria um preço. Que ela danificava os padrões laborais. Que ela danificava os padrões ambientais. Que as corporações eram mais fortes que os governos e que isso danificava nossas democracias. Mas, para ser honesta com vocês, enquanto os bons tempos estavam rolando, a luta contra um sistema econômico baseado na ganância era algo difícil de se vender, pelo menos nos países ricos.

Dez anos depois, parece que já não há países ricos. Só há um bando de gente rica. Gente que ficou rica saqueando a riqueza pública e esgotando os recursos naturais ao redor do mundo.

A questão é que hoje todos são capazes de ver que o sistema é profundamente injusto e está cada vez mais fora de controle. A cobiça sem limites detona a economia global. E está detonando o mundo natural também. Estamos sobrepescando nos nossos oceanos, poluindo nossas águas com fraturas hidráulicas e perfuração profunda, adotando as formas mais sujas de energia do planeta, como as areias betuminosas de Alberta. A atmosfera não dá conta de absorver a quantidade de carbono que lançamos nela, o que cria um aquecimento perigoso. A nova normalidade são os desastres em série: econômicos e ecológicos.

Estes são os fatos da realidade. Eles são tão nítidos, tão óbvios, que é muito mais fácil conectar-se com o público agora do que era em 1999, e daí construir o movimento rapidamente.

Sabemos, ou pelo menos pressentimos, que o mundo está de cabeça para baixo: nós nos comportamos como se o finito – os combustíveis fósseis e o espaço atmosférico que absorve suas emissões – não tivesse fim. E nos comportamos como se existissem limites inamovíveis e estritos para o que é, na realidade, abundante – os recursos financeiros para construir o tipo de sociedade de que precisamos.

A tarefa de nosso tempo é dar a volta nesse parafuso: apresentar o desafio à falsa tese da escassez. Insistir que temos como construir uma sociedade decente, inclusiva – e ao mesmo tempo respeitar os limites do que a Terra consegue aguentar.

A mudança climática significa que temos um prazo para fazer isso. Desta vez nosso movimento não pode se distrair, se dividir, se queimar ou ser levado pelos acontecimentos. Desta vez temos que dar certo. E não estou falando de regular os bancos e taxar os ricos, embora isso seja importante.

Estou falando de mudar os valores que governam nossa sociedade. Essa mudança é difícil de encaixar numa única reivindicação digerível para a mídia, e é difícil descobrir como realizá-la. Mas ela não é menos urgente por ser difícil.

É isso o que vejo acontecendo nesta praça. Na forma em que vocês se alimentam uns aos outros, se aquecem uns aos outros, compartilham informação livremente e fornecem assistência médica, aulas de meditação e treinamento na militância. O meu cartaz favorito aqui é o que diz “eu me importo com você”. Numa cultura que treina as pessoas para que evitem o olhar das outras, para dizer “deixe que morram”, esse cartaz é uma afirmação profundamente radical.

Algumas ideias finais. Nesta grande luta, eis aqui algumas coisas que não importam:

Nossas roupas.

Se apertamos as mãos ou fazemos sinais de paz.

Se podemos encaixar nossos sonhos de um mundo melhor numa manchete da mídia.

E eis aqui algumas coisas que, sim, importam:

Nossa coragem.

Nossa bússola moral.

Como tratamos uns aos outros.

Estamos encarando uma luta contra as forças econômicas e políticas mais poderosas do planeta. Isso é assustador. E na medida em que este movimento crescer, de força em força, ficará mais assustador. Estejam sempre conscientes de que haverá a tentação de adotar alvos menores – como, digamos, a pessoa sentada ao seu lado nesta reunião. Afinal de contas, essa será uma batalha mais fácil de ser vencida.

Não cedam a essa tentação. Não estou dizendo que vocês não devam apontar quando o outro fizer algo errado. Mas, desta vez, vamos nos tratar uns aos outros como pessoas que planejam trabalhar lado a lado durante muitos anos. Porque a tarefa que se apresenta para nós exige nada menos que isso.

Tratemos este momento lindo como a coisa mais importante do mundo. Porque ela é. De verdade, ela é. Mesmo.

[1] Discurso originalmente publicado no The Nation, em http://www.thenation.com/article/163844/occupy-wall-street-most-important-thing-world-now. Tradução para o português do Brasil, de Idelber Alvelar, da Revista Fórum, em http://www.revistaforum.com.br/conteudo/detalhe_noticia.php?codNoticia=9518/a-coisa-mais-importante-do-mundo-.

Fonte
http://www.commondreams.org/view/2011/10/07-0

A falácia do Nerd Quintessencial e outras generalizações igualmente burras

Posted in Nosso Mundo, Vida Digital with tags , , , , on setembro 27, 2011 by Daniel Duende

Hoje, lendo sem muito interesse mais um daqueles posts do tipo “10 motivos para casar/namorar/dar para/amar um nerd” me percebi muito incomodado com a crescente esquizofrenia do estereótipo de nerd que está sendo apropriado pelo hype da internéta. Posto que em 33 anos não encontrei uma só pessoa que não concordasse com a afirmação simples de que eu sou um nerd, e posto que não me vejo em quase nada representado pelo estereótipo de nerd que fazem por aí (e aproveitando que estou querendo voltar a escrever aqui, claro!), achei que valia a pena fazer um rápido disclaimer sobre as fantasias que andam difundindo a respeito de nós… err… dos nerds.

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Anacronismo do judiciário: uma obviedade.

Posted in Brasil, Nosso Mundo with tags , , , , on março 31, 2011 by Daniel Duende

É o óbvio ululante que o cargo de juiz é um cargo político e não técnico, mas quando a política por trás do magistrado permite que tenhamos — em pleno século XXI — juízes que não sabem nem ligar um computador (e muito menos entendem qualquer coisa sobre a internet e as redes), isso coloca em cheque toda a mínima confiabilidade que um juiz pode ter enquanto pessoa capaz de julgar qualquer mérito da atualidade. Se nossos juízes não entendem do mundo em que vivem e atuam, eles entendem de quê?

Se profissões consideradas humildes como lixeiro e carteiro já demandam conhecimentos mínimos de informática daqueles que a elas se candidatam, por que DIABOS nossos juízes ainda podem se dar ao luxo de não saber ligar um computador, quiçá entender o que é neutralidade da rede ou a importância da privacidade de dados online? No país em que ainda temos cartórios particulares enriquecendo na exploração de serviços que o governo poderia, e deveria, estar provendo, nossos juízes matutos digitais são só mais uma prova de atraso.

Ei você aí, que se acha muito moderno porque pode comprar um Ipad no shopping da sua vizinhança e tuitar sobre seu tédio, o que você acha de viver em um país tão atrasado? Não é óbvio que se continuarmos por este caminho, nossa justiça vai continuar indo de mau a pior? Não dá para esperar até que a vítima da matutice da justiça seja você.

O que não queremos saber sobre nós mesmos, sobre psiquiatria e suas drogas

Posted in Meu Mundo, Nosso Mundo with tags , , , , , , , , , , on março 21, 2011 by Daniel Duende

Em minha família, e em quase todas as outras que conheço, é senso comum de que os médicos tem sempre razão. Isso inclui as situações em que os médicos informam às pessoas (e às suas famílias) sobre o que estas mesmas pessoas sentem, qual o rótulo que se aplica a elas e… o pior de tudo… qual é o remédio para que elas se tornem “normais”. Antes dos 15 anos eu já sabia que tudo isso era bullshit — é o tipo de coisa que você nota quando a conta dos antidepressivos e remédios para dormir da família cresce sem parar, mas todos continuam cada dia mais tristes. O mundo lá fora é mais complicado do que gostaríamos que ele fosse, e por isso gostamos de fingir que existem soluções tão fáceis quanto pílulas da felicidade. Mas a verdade é que aquilo que enxergamos como doença é parte da nossa própria humanidade, e aquilo que enxergamos como cura pode muito bem nos deixar realmente doentes… ou nos matar. Ao tentar curar o que não é doença, nos tornamos cada dia mais doentes.

As pessoas são o que elas são, e não cabem nos rótulos que a medicina psiquiátrica inventou e as mídias tradicionais trataram de difundir para elas. Assista este (tocante) vídeo da Citizens Commission on Human Rights International (CCHR-Int) sobre a perversidade dos rótulos que estamos atribuindo principalmente aos nossos jovens:

Mas piores do que os rótulos é aquilo que fazemos com eles. Boa parte das pessoas, incluindo pais e mães e professores honestos e bem intencionados, não faz a menor idéia de que boa parte dos medicamentos psiquiátricos (e remedinhos para acalmar) podem causar depressão, surtos psicóticos graves, coma e morte. Não estamos apenas nos julgando e rotulando, mas estamos nos envenenando com drogas cuja existência se dá unicamente por conta dos interesses da indústria farmacêutica, que ganha milhões vendendo soluções falsas e perigosas para as questões insolúveis do humano — como as dores e os conflitos da alma.

Veja este vídeo, também da CCHR-Int, sobre os efeitos colaterais das drogas psiquiátricas que estamos administrando em nossas crianças:

Para quem quer saber mais sobre estas drogas, o CCHR-Int tem uma base de dados sobre avisos de risco e efeitos colaterais documentados da maior parte das drogas que estamos comprando, consumindo e acreditando hoje em dia.

Common and well-documented side effects of psychiatric drugs include mania, psychosis, hallucinations, depersonalization, suicidal ideation, heart attack, stroke and sudden death.  And that is a very partial list of the side effects documented by international drug regulatory agencies the world over.

Despite a tremendous amount of information available about psychiatric drugs and their adverse effects, the data has not been easily accessible or understandable to the general public.  It is for this reason that CCHR is providing you with information that is not easily available, but is documented.  So you can find the risks for yourself, your friends and family.”

Por falar em Estado policializado…

Posted in Brasil, Nosso Mundo with tags , , , on março 21, 2011 by Daniel Duende

“Só um país que se considera em guerra constante com a sua população mantém um corpo regular de Polícia Militar com função de policiamento do ambiente e da população civis.”

Na maior parte dos países do mundo, inclusive nos países do oeste da Europa e nos EUA que adoramos imitar, as Polícias Militares se limitam manter a ordem dentro de instalações e ambientes militares. O Brasil é um dos poucos países do mundo onde a Polícia Militar é responsável pela “manutenção da ordem” de meios civis. Isso diz muito sobre nós, e sobre os maus hábitos que até hoje não abandonamos.

Brasil retrocede ao tempo das prisões políticas para fazer bonito para Obama.

Posted in Brasil, Nosso Mundo with tags , , , , , , , on março 21, 2011 by Daniel Duende

Em seu discurso durante visita ao Rio de Janeiro, Barack Obama elogiou o país por ter se tornado uma democracia e ter deixado para trás os tempos da ditadura. Mas naquele exato momento, e por conta de sua visita, estávamos regredindo a práticas típicas dos tempos de ditadura. Treze manifestantes foram presos durante protestos contra a vinda de Obama no Rio, após a explosão de um coquetel molotov. Até onde se sabe, não há prova alguma de que qualquer um deles tenha envolvimento com o artefato explosivo. Foram presos apenas porque estavam lá, protestando, quando a explosão aconteceu.

Acusados sem prova alguma dos crimes de lesão corporal e incêndio (segundo as fontes às quais tive acesso), os 13 brasileiros — incluindo um rapaz de 16 anos e uma conhecida vovó de 70 anos torcedora do Fluminense — foram enviados para presídios fluminenses e tiveram suas cabeças raspadas.

Raspar a cabeça dos presos é uma forma de agredir-lhes a identidade e a individualidade, tornando-os mais sensíveis à tortura e ao terror psicológico. É um expediente comum nos presídios políticos de Abu Ghraib e Guantanamo, onde os EUA torturavam e torturam seus presos políticos (de forma semelhante à que fazíamos durante a nossa Ditadura, que também se deveu em parte a uma tentativa de agradar os EUA). Não podemos deixar baratos estes dias em que o Brasil macaqueou o Estado Terrorista Norte-Americano e relembrou o próprio passado ditatorial.

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