Arquivo de Global Voices em Português

De volta ao Global Voices em Português

Posted in Global Voices, Vida Digital with tags , , , , , , , on janeiro 31, 2011 by Daniel Duende

Depois de aventuras e desventuras, algumas inenarráveis sob risco de arranjar mais inimigos do que gostaria, estou finalmente de volta ao velho lar — a equipe colaborativa de voluntários de tradução do observatório de blogosferas Global Voices em Português.

Ainda não deu para traduzir muita coisa. Hoje só consegui traduzir uma matéria porque fiquei ocupado organizando e tomando conta da página de cobertura especial dos Protestos no Egito, que precisava de um pouco de amor.

E por falar e amor, fiquei emocionado com a quantidade (e qualidade) das boas vindas que recebi de velhos amigos e colegas de equipe de todo o mundo nas listas internas de discussão do GV. Vocês são ótimos! Estava morrendo de saudades de trampar lado a lado com vocês! Valeu mesmo pelas boas vindas!

MegaNão com (inesperada) presença de Bruce Sterling e Jasmina Tesanovic no Balaio Café

Posted in Brasília, Nosso Mundo, privacidade e liberdade, Vida Digital with tags , , , , , , , , , , , , , , , on dezembro 16, 2010 by Daniel Duende

Só para não deixar passar em branco o evento realizado ontem no Balaio Café, que contou com as ilustres presenças do escritor/pensador cyberpunk norte-americano Bruce Sterling e sua esposa, a escritora, feminista e cineasta sérvia Jasmina Tesanovic.

Todo evento voltado à discussão da liberdade da (e na) Internet é bem vindo nestes tempos de perseguição jihádica ao Wikileaks e eterno risco de renascimento da hidra lerneana da Lei Azeredo (refortalecida por outro monstro digno da atenção de Spectreman, a Convenção de Budapeste). E foi nesta linha que seguiram as falas da maior parte dos participantes, como Caribé e Paulo Rená: o da necessidade da vigilância e combate aos riscos representados pelas novas iterações (é a 4ª vez que uso esta palavra hoje, eu sei!) do mal escrito e reescrito projeto de lei que visa criminalizar não apenas os usos comuns e razoáveis da rede feitos por milhões de brasileiros, como também atender à demanda (e mostrar trabalho em troca da grana recebida) de bancos como o Bradesco, que busca reptilicamente economizar o dinheiro que precisaria investir em uma melhor segurança para seus clientes de home-banking, jogando o ônus no governo e na sociedade (inclusive seus clientes, que salvo notáveis excessões não parecem se importar com isso).

Yasodara Córdova aproveitou os primeiros 25 segundos de sua fala para lembrar que as mulheres em geral tem um grande poder em mãos, o de público consumidor poderoso, e que deveriam lembrar-se disso em seus ativismos — inclusive no ativismo contra a Lei Azeredo e outras ameaças às pessoas digitais. Depois disso, Yasodara passou o bastão de voz que convencionamos chamar microfone para Guilherme Almeida (e a hora avançada pode me sujeitar a errar nomes!), do MJ, que fez uma apresentação sobre a Consulta Pública que está sendo realizada pelo Ministério da Justiça visando a construção de uma nova legislação de proteção aos Dados Pessoais no Brasil. Aos ativistas, fica a dica. Mais fácil (embora talvez menos divertido e festivo) do que qualquer manifestação ou flash mob é aproveitar as consultas públicas realizadas pelo governo sobre temas que são parte da agenda e das noites mal dormidas de muitos de nós. Acesse o site da Consulta Pública sobre Dados Pessoais.

Mas havia bem vindas vozes dissonantes. Ariel Foina defendeu que para além da hidra lerneana da Lei Azeredo (“é apenas mais uma batalha em uma guerra muito maior”, segundo ele), existem as ameaças à nossa privacidade e liberdade na rede que são causadas por nossos próprios hábitos, ou falta deles, como o hábito que não temos de ler os contratos digitais que assinamos (mesmo sem nos dar conta) quando começamos a utilizar um serviço. Os próprios termos de uso do Google são um bom exemplo disso. Segundo apresentado com necessária teatralidade por Ariel durante sua fala, estes termos de uso apresentam em seu parágrafo décimo-primeiro, que trata sobre a privacidade dos conteúdos de seus usuários:

O usuário compreende e concorda que o Google pode acessar, registrar e divulgar as suas informações pessoais e o conteúdo da sua conta, a fim de fornecer o Serviço ou caso solicitado por força da lei ou quando acreditemos de boa fé(1) que tal acesso, registro ou divulgação é realmente necessário para atender a um processo legal ou para proteger os direitos, a propriedade e/ou a segurança do Google, de seus afiliados ou do público geral(!?!?)

Ariel frisou, com todos os negritos acima, que é antes de mais nada absurdo que uma empresa sustente (e você assine embaixo) que terá boa fé(1) em sua decisão a respeito da divulgação do conteúdo da sua conta ou dados pessoais. “Ora, empresas não tem boa fé ou opinião. Visam lucro ou seus interesses e é absurdo que falem (e você assine e baixo) de boa fé em seus termos de uso”, bradava Ariel. Mais absurda ainda é a segunda parte, que condiciona a quebra da sua privacidade à “proteção dos direitos, propriedade e/ou segurança do Google, seus afiliados ou do público em geral(!?!?)”. Então quer dizer que o Google se reserva o direito de divulgar qualquer um dos conteúdos ou dados que você confiar a ele se ele acreditar DE BOA FÉ que estes dados ameaçam os DIREITOS (que direitos!?), SEGURANÇA ou PROPRIEDADE do PÚBLICO GERAL!? E quer dizer que não só você e eu, mas também muitos dos ativistas anti-Lei Azeredo e uma boa parte do Governo Federal (além dos Estaduais e Municipais) está assinando mesmo sem ler embaixo disso? Já paramos para pensar que por Público Geral (ou mesmo por “afiliados”) o Google pode entender o povo Norte-Americano (e seu governo), ou alguma empresa competidora da sua, e que pode então de boa fé divulgar seus dados e todos os seus emails a eles? Com ameaças como nós mesmos à nossa privacidade, quem precisa de Lei Azeredo?

Mas nem tudo são espinhos na guerra contra os inimigos da liberdade da rede, de nossa privacidade, e contra nossa própria mania de assinar contratos digitais sem pensar duas vezes nem lê-los uma vez sequer. As presenças de Bruce Sterling e Jasmina Tesanovic não apenas representaram uma excelente chance de intercâmbio entre os ativistas da liberdade na rede do Brasil e do exterior (lembrando que Sterling foi autor do memorável livro The Hacker Crackdown: Law and Disorder in the Electronic Frontier, disponível aqui, que trata dos ataques do governo Norte-Americano à subcultura hacker e à liberdade da rede no início dos anos 90), mas também uma interessande oportunidade de se ouvir alguns questionamentos que — por acreditarmos já ter uma resposta pronta, não nos dignamos a fazer. Em certo momento do debate, Bruce Sterling pediu o microfone e perguntou aos presentes (com a ajuda de minha capenga tradução quase simultânea):

“O Presidente Lula disse em certo momento que após o final de seu governo irá descansar por uns quatro meses e depois se tornará blogueiro e tuiteiro. Antes de mais nada, ele realmente quis dizer isso [did he really mean it]? Além disso, quais serviços, suportes e provedores ele pretende usar, e quais serão os temas que abordará, e quais suas intenções?”

Sterling ouviu dos presentes apenas a resposta de que a fala do presidente se prestava a reconhecer a importância da blogosfera. Eu, que estava sentado logo ao lado dele, pude ver a sua frustração. Mesmo sendo Norte-Americano e estando acostumado a ouvir mentiras e frases vazias de seus presidentes, Sterling parecia esperar mais de Lula. Bem, entre outras coisas este post é uma boa oportunidade para que outras pessoas respondam à pergunta de Sterling. Prometo repassar as respostas para Bruce, fielmente traduzidas para o inglês por este ex-coordenador do Global Voices em Português que vos escreve. Prometo também publicar aqui os comentários de Bruce sobre as respostas, caso ele faça algum.

(da esquerda para a direita) Jasmina Tesanovic, Daniel Duende, Bruce Sterling, Paulo Rená e Yasodara Córdova no MegaNão do Balaio Café, com Daniel Duende tentando fazer as vezes de tradutor quase simultâneo. Foto de @cesarcardoso

Bruce Sterling escreve o blog Beyond the Beyond na revista Wired, e Jasmina Tasanovic escreve o blog Virtual Vita Nuova, hospedado no WordPress.

 

P.S. você também acha que este post deveria ter mais fotos? Então ajude o Duende que estava morrendo de sono ao terminar de escrevê-lo às quatro e meia da manhã e dê umas dicas de boas fotos do evento disponíveis na rede.

 

UPDATE:
Em tempo, o evento também me deu a oportunidade de descobrir que o inglês com sotaque sérvio é menos incompreensível para ouvidos brasileiros do que o inglês com sotaque texano. Deu também pra verificar que mesmo o sotaque texano não é páreo para a necessidade deste que vos escreve de se construir pontes de comunicação entre as pessoas que tem algo a dizer.

 

O que é Bridge Blogging?

Posted in Nosso Mundo, Vida Digital with tags , , , , , , on junho 25, 2010 by Daniel Duende

Texto que escrevi originalmente para o meta-livro Para Entender a Internet (que misteriosamente não está mais online, mas dá para baixar aqui), resgatado por Magno Valdetaro do Design Kamikaze, e que agora republico aqui (sem mudar uma sílaba sequer, com todos os seus erros e acertos) para que nunca mais saia de perto de mim… =)

Bridge-Blogging

Bridge-Blogging, ou Blogagem-Ponte, é o nome dado à atividade de blogar de modo a criar uma ponte entre dois grupos ou espaços distintos, geralmente pinçando conteúdos produzidos pelo primeiro grupo e agregando a eles material que permita a sua compreensão aos leitores pertencentes ao segundo grupo. A delimitação destes grupos ou espaços pode ser de natureza regional, social, cultural, linguística ou técnica, no caso de comunidades técnicas específicas, e frequentemente mais de uma destas diferenças existe entre os dois grupos entre os quais se realiza esta ponte.

O alcance virtualmente ilimitado que nos é dado pela Internet nos dá a impressão de que da sala de nossa casa ou de uma cabine de LAN-house podemos ter acesso a todos os conteúdos produzidos em todo o mundo e que estejam disponíveis na rede. Salvo bloqueios causados por censura governamental ou organizacional aos conteúdos disponíveis na rede, como é o caso da Great Firewall of China ou da proibição do acesso ao Orkut em muitas empresas, não estamos enganados ao pensar que todos os conteúdos nos são virtualmente acessíveis. Por outro lado, uma grande quantidade destes conteúdos pode estar sendo gerado em línguas que não falamos, ou por pessoas que assumem que seu público terá conhecimentos, paradigmas culturais e noções de contexto que nos podem ser alienígenas. Isto se torna particularmente verdade quando falamos das blogosferas globais.

Uma das principais características dos blogues é a linguagem direta e espontânea, sem preocupações formais e de contextualização, com que são escritos. Desta forma, quando eu, brasileiro razoavelmente informado, de classe média e com o domínio de no máximo dois idiomas além da língua pátria, tento acessar os blogues de Bangladesh, me deparo com uma série de problemas. Antes de mais nada, não falo bengali, uma das línguas mais frequentemente usadas na região. Posso, contudo, encontrar por lá alguns blogues que sejam escritos em inglês, uma língua que, até prova em contrário, domino razoavelmente. Mas mesmo vencendo a barreira da língua, nada me garante que eu conseguirei entender os fatores culturais e contextais nos quais o blogueiro está envolvido ao escrever sua blogada. O resultado é que, mesmo que eu entenda do que diabos meu colega bangladeshi está falando, certamente perderei boa parte da mensagem por não saber a quê ele se refere quando cita algo de conhecimento corrente para um leitor de seu país, ou quando faz um link para algum outro endereço que esteja escrito em bengali.

Uma situação semelhante, embora de outra ordem, pode ocorrer quando eu tento participar de uma rede de blogues de astrônomos em meu país. Posso, a princípio, pertencer ao mesmo contexto linguístico e cultural dos blogueiros, mas estou longe de dominar os mesmos conhecimentos que eles, e certamente não entenderei patavinas do jargão que usam para se comunicar entre si. Em tempo, patavinas quer dizer “coisa nenhuma” nas gírias usadas por meu pai, que acabei absorvendo.

Para permitir que os leitores globais consigam atravessar estes abismos existentes na rede, existe o trabalho do bridge-blogger. Este abnegado blogueiro, que porventura domina os conhecimentos linguísticos, culturais, técnicos e contextuais relativos aos dois grupos, irá pinçar conteúdos dos blogues de um grupo e citá-los, quando necessário traduzindo-os para a linguagem do segundo grupo, em sua blogada. Irá então incluir nesta mesma blogada todas as contextualizações e esclarecimentos necessários para que, usando o exemplo do parágrafo anterior, eu, um blogueiro brasileiro, possa entender as blogadas de meus colegas bangladeshis sobre a última onda de atentados e tensões fronteiriças com a Índia que assola seu país.

Um bom exemplo, entre tantos exemplos notáveis, desta atividade de bridge-blogging é o trabalho realizado pelo observatório de blogosferas Global Voices Online (http://www.globalvoicesonline.org). O Global Voices, que se propõe a observar e amplificar as vozes das blogosferas globais, conta com uma equipe de mais de 150 autores localizados nas mais diversas regiões do mundo, versados cada um em seus idiomas e conhecedores cada um de suas realidades regionais e culturais. Estes autores realizam então um trabalho de compilar as conversas correntes em suas blogosferas regionais ou linguísticas, produzindo artigos para o observatório Global Voices Online, nos quais citam as referidas blogadas, traduzem o conteúdo das citações, e contextualizam o leitor desconhecedor daquela realidade a respeito dos assuntos e situações abordados.

Estes conteúdos, compilados no observatório em língua inglesa, são então retraduzidos pela grande equipe do projeto paralelo Global Voices Lingua para mais de 16 línguas distintas, completando este intercâmbio de vozes e informações entre as mais diversas regiões e culturas. Desta forma, um leitor de língua portuguesa pode, ao acompanhar o site Global Voices em Português, atualizar-se sobre os recentes conflitos em Madagascar pelo ponto de vista dos próprios blogueiros daquele país, que relataram em seus bloges aquilo que estão vivendo em sua língua natal malgaxe. Isto se torna possível graças ao trabalho de bridge-blogging realizado pelas equipes Global Voices Online.

Bridge-Blogging foi escrito por Daniel Duende / @danielduende parte integrante do “beta-livro”: Para entender a internet –  Noções, práticas e desafios da comunicação em rede.