Arquivo para justiça

Anacronismo do judiciário: uma obviedade.

Posted in Brasil, Nosso Mundo with tags , , , , on março 31, 2011 by Daniel Duende

É o óbvio ululante que o cargo de juiz é um cargo político e não técnico, mas quando a política por trás do magistrado permite que tenhamos — em pleno século XXI — juízes que não sabem nem ligar um computador (e muito menos entendem qualquer coisa sobre a internet e as redes), isso coloca em cheque toda a mínima confiabilidade que um juiz pode ter enquanto pessoa capaz de julgar qualquer mérito da atualidade. Se nossos juízes não entendem do mundo em que vivem e atuam, eles entendem de quê?

Se profissões consideradas humildes como lixeiro e carteiro já demandam conhecimentos mínimos de informática daqueles que a elas se candidatam, por que DIABOS nossos juízes ainda podem se dar ao luxo de não saber ligar um computador, quiçá entender o que é neutralidade da rede ou a importância da privacidade de dados online? No país em que ainda temos cartórios particulares enriquecendo na exploração de serviços que o governo poderia, e deveria, estar provendo, nossos juízes matutos digitais são só mais uma prova de atraso.

Ei você aí, que se acha muito moderno porque pode comprar um Ipad no shopping da sua vizinhança e tuitar sobre seu tédio, o que você acha de viver em um país tão atrasado? Não é óbvio que se continuarmos por este caminho, nossa justiça vai continuar indo de mau a pior? Não dá para esperar até que a vítima da matutice da justiça seja você.

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Texto de Julian Assange, do Wikileaks, escrito horas antes de sua prisão

Posted in Nosso Mundo, Vida Digital with tags , , , , , , , , , on dezembro 7, 2010 by Daniel Duende

Durante toda a movimentação (e a bem vinda balbúrdia) causada pela publicação de correspondências diplomáticas norte-americanas pelo Wikileaks, mantive-me em silêncio por aqui. Nada mais disse, porque o que tinha a dizer já estava sendo dito via facebook ou via twitter. O Twitter, inclusive, que achou por bem ceder às pressões do maior estado terrorista do mundo e censurar o Wikileaks em seus trending topics (como dizem que também censurou hashtags da campanha da Dilma durante as eleições brasileiras). O Twitter que deixei para não mais voltar, e microblogo agora via Identi.ca.

Mas agora acho importante republicar o texto escrito por Julian Assange, fundador do Wikileaks, pouco antes de se entregar às autoridades na manhã desta terça-feira em Londres, depois de ser perseguido como um terrorista sob acusações falsas que apenas pretendiam encobrir seu único crime: querer revelar a todos a verdade que os nauseabundos governos do planeta querem esconder.

Este é o nosso mundo. Leiam o texto de Assange, conforme publicado por Luis Nassif em seu blogue.

Em 1958 um jovem Rupert Murdoch, então proprietário e editor do “The News” de Adelaide(Austrália), escreveu: “Na corrida entre o segredo e a verdade, parece inevitável que a verdade sempre vença.”

Sua observação talvez tenha sido um reflexo da revelação de seu pai, Keith Murdoch, sobre o sacrifício desnecessário de tropas australianas nas costas de Gallipoli, por parte de comandantes britânicos incompetentes. Os britânicos tentaram calá-lo, mas Keith Murdoch não seria silenciado e seus esforços levaram ao termino da desastrosa campanha de Gallipoli.

Quase um século depois, o Wikileaks também publica sem medo fatos que precisam ser tornados públicos.

Eu cresci numa cidade do interior do estado de Queensland, onde as pessoas falavam de maneira curta e grossa aquilo que pensavam. Eles desconfiavam do governo (‘big government’) como algo que poderia ser corrompido caso não fosse vigiados cuidadosamente. Os dias sombrios de corrupção no governo de Queensland, que antecederam a investigação Fitzgerald, são testemunhos do que acontece quando políticos impedem a mídia de reportar a verdade.

Essas coisas ficaram comigo. O Wikileaks foi criado em torno desses valores centrais. A ideia concebida na Austrália era usar as tecnologias da internet de maneira a reportar a verdade. O Wikileaks cunhou um novo tipo de jornalismo: o jornalismo científico. Nós trabalhamos com outros suportes de mídia para trazer as notícias para as pessoas, mas também para provar que essas notícias são verdadeiras. O jornalismo científico permite que você leia as notícias, e então clique num link para ver o documento original no qual a notícia foi baseada. Desta maneira você mesmo pode julgar: Esta notícia é verdadeira? Os jornalistas a reportaram de maneira precisa?

Sociedades democráticas precisam de uma mídia forte e o Wikileaks faz parte dessa mídia. A mídia ajuda a manter um governo honesto. Wikileaks revelou algumas duras verdades sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão, e notícias defeituosas (‘broken stories’) sobre corrupção corporativa.

As pessoas afirmaram que sou anti-guerra: que fique registrado, eu não sou. Algumas vezes, nações precisam ir à guerra, e simplesmente há guerras. Mas não há nada mais errado do que um governo mentir à sua população sobre estas guerras, e então pedir a estes mesmos cidadãos que coloquem suas vidas e o dinheiro de seus impostos a serviço destas mentiras. Se uma guerra é justificável, então diga a verdade e a população dirá se deve apoiá-la ou não.

Se você leu qualquer um dos relatórios de guerra sobre o Afeganistão e o Iraque, qualquer um dos telegramas das embaixadas estadunidense ou qualquer uma das notícias sobre as coisas que o Wikileaks tem reportado, considere quão importante é que toda a mídia possa reportar tais fatos livremente.

O Wikileaks não é o único que publicou os telegramas das embaixadas dos Estados Unidos. Outros suportes de mídia, incluindo o britânico The Guardian, o The New York Times, o El País e o Der Spiegel na Alemanha publicaram os mesmos telegramas. Porém é o Wikileaks como coordenador destes outros grupos, que tem sido alvo dos mais virulentos ataques e acusações por parte do governo estadunidense e seus acólitos. Eu tenho sido acusado de traição, mesmo sendo cidadão australiano e não estadunidense. Tem havido inúmeros sérios clamores nos EUA para que eu seja capturado por forças especiais estadunidenses. Sarah Palin diz que eu deveria ser “caçado como Osama Bin Laden”. Uma lei republicana tramita no senado norte-americano buscando declarar-me uma “ameaça transnacional” e tratar-me correspondentemente. Um assessor do gabinete do primeiro-ministro canadense clamou em rede nacional de televisão que eu fosse assassinado. Um blogueiro americano clamou para que o meu filho de 20 anos de idade aqui na Austrália fosse sequestrado e ferido por nenhum outro motivo além de um meio de chegar até mim.

E os australianos devem observar sem orgulho a desgraçada anuência a estes sentimentos por parte da Primeira ministra australiana Guillard e a secretária do Estado dos EUA Hillary Clinton, as quais não emitiram sequer uma palavra de crítica às demais organizações midiáticas. Isto por que o The Guardian, The New York Times e Der Spiegel são velhos e grandes, enquanto o Wikileaks é ainda jovem e pequeno.

Nós somos os vira-latas. O governo Guillard está tentanto atirar no mensageiro porque não quer que a verdade seja revelada, incluindo informações sobre as suas próprias negociações diplomáticas e políticas.

Houve alguma resposta por parte do governo australiano às inúmeras ameaças públicas de violência contra mim e outros colaboradores do Wikileaks? Não me parece absurdo supor que a primeira ministra australiana deveria estar defendendo os seus cidadãos de ações dessa natureza, porém, de sua parte, tem havido apenas alegações infundadas de ilegalidade. A Primeira ministra e especialmente o Procurador-Geral deveriam levar a cabo suas obrigações com dignidade e acima das disputas. Que fique claro que esses dois pretendem salvar a própria pele. Eles não conseguirão.

Toda vez que o Wikileaks publica a verdade sobre abusos cometidos pelas agências dos EUA, políticos australianos entoam o coro provavelmente falso com o Departamento de Estado: “Você colocará vidas em risco! Segurança nacional! Você colocará em perigo as nossas tropas!” E então eles dizem que não há nada de importante no que o Wikileaks publica.

Mas as nossas publicações estão longe de serem desimportantes. Os telegramas diplomáticos dos EUA revelam alguns fatos inquietantes:

Os EUA pediram a sua diplomacia para que roubassem material humano (“personal human material”) e informações de oficiais da ONU e grupos de direitos humanos, incluindo DNA, impressões digital, scans de íris, números de cartão de crédito, senhas da internet e fotos de identificação, em violação a tratados internacionais. É provável que diplomatas australianos da ONU também sejam alvos.

O Rei Abdullah da Arabia Saudita pediu aos oficiais dos EUA na Jordânia e Bahrein que interrompam o programa nuclear iraniano a qualquer custo.

A investigação britânica sobre o Iraque foi adulterada para proteger “interesses dos EUA”

A Suécia é um membro secreto da OTAN e a Inteligência dos EUA não divulga suas informações ao parlamento.

Os EUA está forçando a barra para tentar fazer com que outros países recebam detentos libertados de Guantanamo. Barack Obama concordou em encontrar o presidente esloveno apenas se a Eslovênia recebesse um prisioneiro. Nosso vizinho do Pacífico, Kiribati, foi oferecido milhões de dólares para receber detentos.

Em sua decisão histórica no caso dos Documentos do Pentágono, a Suprema Corte Americana disse: “ apenas uma impresa livre e sem amarras pode eficientemente expor fraudes no governo”. A tempestade turbulenta em torno do Wikileaks hoje reforça a necessidade de defender o direito de toda a mídia de revelar a verdade.

Julian Assange é o editor-chefe do Wikileaks

http://blogs.theaustralian.news.com.au/mediadiary/index.php

UPDATE:
Por grandiosa justiça poética, tá na hora de votar em Julian Assange como Person of the Year 2010 na revista TIME.

Mural: Preconceito social e agressão na Universidade Federal de Roraima

Posted in Mural do Absurdo Cotidiano with tags , , , , , , on novembro 14, 2010 by Daniel Duende

Repassando email recebido ainda agora da Lau Franco

Neste sábado dia 13/11/10 as 15:20 sofri agressão física dos guardas da entrada da UFRR pela av: Venezuela.
Sou Estudante da universidade desde 2001 quando entrei na graduação em Ciências Sociais, fiz Especialização e estou terminando o Mestrado em Economia nessa mesma Universidade. Além disso sou funcionário da UFRR desde o começo de 2009 cedido pela prefeitura de Boa Vista. Passo nesse mesmo portão de entrada pelo menos 4 vezes por dia.
Já fui abordado diversas vezes pelos guardas em outras ocasiões. Todas as vezes sempre os CARROS ou MOTOS que estão à minha frente passam sem ser solicitado identificação, Mais quando eu vou passar, me param.
Percebí que o motivo das abordagens diárias era porque sempre entrava na UFRR numa BICICLETA VELHA ano 1982. Quando entrava de carro sempre passei despercebido.

Neste sábado, aconteceu a mesma coisa. Um motociclista passa pelos guardas 5 metros na minha Frente. ELA PASSA, e a mim pedem para parar. Decidí que não ia parar pois estavam tratando as pessoas com diferença e falei pro guarda passando de bicicleta que não ia parar, e porque ele não pediu identificação do motociclista que passou no mesmo momento que eu.
Continuei meu trajeto em direção ao NECAR/UFRR onde ia trabalhar. 30 metros depois um dos guardas pegou a motocicleta e partiu para cima de mim. Eu parei e disse que ia trabalhar. Ele me derubou da bicicleta e me agrediu covardemente com um cacetete ferindo minha boca e quebrando vários dos meus dentes, enquanto o outro guarda vinha com arma em punho apontado para mim que estava caído sendo agredido pelo outro. Não me agrediram mais, ou atiraram em mim porque as pessoas que passavam interviram ao ver o absurdo.
Fui ARRASTADO ATÉ A GUARITA SENDO AGREDIDO dessa vez por palavrões e insultos pois os mesmos diziam que eu não ia entrar e era pra aprender a respeitar cara de homem. Mais eles eram mais homens do que eu porque estavam com uma arma? Depois que chegou meus colegas do NECAR e outros professores no local da agressão, os guardas disseram que tentaram me imobilizar, que não me conheciam e que não me identifiquei. Mais veja só. Eu estava fardado com a camiseta do NECAR/UFRR bem grande estampado no meu peito e em horário de aula. O motociclista que passou de capacete e sem nenhuma identificação eles disseram que era estudante. Como eles sabem quem é e quem não é estudante nessa UFRR? Precisam me conhecer para que eu possa entrar no meu local de trabalho e na universidade que estudo a tanto tempo?
Segue em anexo as fotos que tirei para que possam ver como estava identificado com a farda do NECAR/UFRR e como fiquei ferido.
Passem para seus contatos, para que isso não volte a acontecer, numa universidade pública e em nenhum outro lugar. Para que o direito de ir e vir dos servidores  alunos e comunidade não seja cerceado nessa UNIVERSIDADE QUE É PÚBLICA.
Um abraço
valdinei fortunato portela

Em resumo, mais uma amostra de um sem número de absurdos que se tornaram comuns em nosso cotidiano — preconceito violento de classe, até mesmo entre pessoas de classes muito semelhantes; endofobia; truculência; exacerbação de um tipo daninho de virilidade quando de posse de uma arma ou de autoridade. Somos mesmo um bocado absurdos! Mas ainda mais absurdo é que, mesmo em face da cotidianeidade destas aberrações, muito pouco se faz a respeito. Em um país sério esse tipo de coisa deveria ser punida com todo o rigor da lei. Da mesma forma que deveriam ser punidos com igual rigor todos aqueles que atentam contra o próprio povo, e contra as instituições políticas do país. Sim, eu estou falando de muitos de nossos representantes públicos, mas estou falando também da enorme turba de amigos e apadrinhados que os seguem e se abundam em diversos cargos de vários níveis de nosso governo, gente que não só mama nas tetas do governo como também muito pouco faz daquilo que é esperado de seus cargos…

Ainda temos um longo caminho até nos tornarmos um país sério. O grande problema é que para cada pessoa querendo dar um passo em frente nesta direção, tem ao menos mais duas com preguiça de fazer qualquer coisa e mais uma que quer andar na direção contrária. E enquanto não há solução, é bom que ao menos não fechemos os olhos para o absurdo.

Olhe bem para o Valdinei. Ele é gente que nem eu ou você, e ele apanhou simplesmente por não aceitar uma humilhação que talvez nem eu nem você aceitaríamos. Você pode até não se importar, mas olhe. Isso está acontecendo no seu país. Será que você também tem alguma coisa a ver com isso?

Em seguida, as fotos.

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