A possível cura da AIDS, e seus (possíveis) efeitos colaterais sociais.

Timothy Ray Brown, o Paciente de Berlim. Copyright www.peterrigaud.comEstava lendo hoje em matéria do Jornal do Brasil sobre a possibilidade de que um paciente de Leucemia soropositivo possa ter sido curado da AIDS durante o devastador tratamento ao qual foi submetido para curar-se da primeira. Segundo o jornal, Timothy Ray Brown, o ‘Paciente de Berlin’, teria obtido em testes clínicos resultados que indicariam o “zeramento” da presença do vírus em seu organismo e um aumento dos níveis de células do sistema imunológico a níveis considerados normais em um homem soronegativo de sua idade. Um dos possíveis motivos desta negativação da presença do vírus teria sido transplante de medula óssea de um doador que apresentava uma mutação que o tornava quase imune ao vírus da AIDS. Ainda segundo a matéria, esta mutação ocorreria em aproximadamente 1% da população caucasiana (leia-se “branca”) de algumas partes da Europa.  Leia a matéria para mais detalhes.

Para além das boas notícias — afinal trata-se de uma possível cura para a AIDS, mesmo que sofrida, longa e ainda bastante incerta — fiquei preocupado com algumas das implicações desta notícia. Antes de mais nada, se a cura de uma das doenças mais faladas dos últimos 30 anos, até agora incurável, passar por transplante de células tronco advindas de uma parcela bastante restrita da população branca mundial, isso abre espaço para algumas possibilidades nefastas. Primeiro de tudo, quanto tempo vai levar para alguns idiotas da supremacia branca começarem a usar isso como argumento para sua pretensa superioridade? Por outro lado, se fosse descoberta esta mutação também nas populações negróides e mongolóides (pessoas de descendência mongólica, para bom entendedor), quanto tempo seria necessário antes que começassem verdadeiras indústrias de extração de medula óssea e células troncos dos pobres indivíduos não-Europeus abençoados e amaldiçoados com a tal CCR5 delta 32 homozigosidade?

Para além destas considerações distópicas tão familiares para qualquer um que não viva aprisionado na torre de cristal do mass-media, há também a óbvia distinção socioeconômica de oportunidades que se aplicaria aos possíveis candidatos a esta cura. Mais uma vez como diz a matéria do JB:

Se essas abordagens forem bem-sucedidas, elas serão caras. Portanto, nos estágios iniciais é provável que sejam reservadas a pessoas sem opções de tratamentos restantes ou com câncer exigindo transplante de células-tronco ou de medula óssea.

Como a experiência de Timothy Brown mostra, curar infecção por HIV por meio de quimioterapia ablativa, de drogas imunossupressoras e de transplante de células-tronco não é um tratamento para os fracos. Isso exige coragem, determinação e muito apoio para se tornar a primeira pessoa a ser `curada` de infecção por HIV.

Quem teria o dinheiro, e as condições clínicas, para conseguir uma rara doação destas e estar apto a sujeitar-se ao caríssimo e devastador tratamento? Se você leu a matéria, terá percebido que trata-se de devastar completamente o sistema imunológico do paciente por meio de quimioterapia para posteriormente transplantar a rara medula óssea de um doador CCR5 delta32, o que por vezes precisa ser feito mais de uma vez. Todo o tratamento precisa ser acompanhado por imunossupressores. Para qualquer um que teve o mínimo contato com quimioterapia, torna-se óbvio que isso é literalmente um processo do tipo “se o paciente não morrer, ele sobreviverá e poderá ficar curado”.

Esta é uma daquelas situações nas quais a gente não sabe pra que lado torce. Se é para que a cura seja esta mesmo, e enfim esteja sendo encontrada, apesar de suas implicações médicas e sociais, ou se é para que logo alí, daqui a alguns meses, descubram que existe uma cura muito mais simples e socialmente descomplicada. Talvez, apesar de tudo, eu seja um tipo estranho de otimista.

Por fim, por que é que as matéria de jornalismo científico nunca levantam estes questionamentos? Será que o jornalismo científico se tornou tão compartimentalizado e asséptico a ponto de esquecer que a ciência existe e serve a um mundo de seres bio-psico-sociais com uma pecha pela exploração do semelhante e para a verticalização de relações? Este questionamento, acima de todos os outros, surgido em uma conversa que tive com Laurianne Franco é que me motivou a escrever este post. Por que é que não podemos pensar as coisas de forma integrada? Será que estamos ensinando nossos jornalistas científicos a serem idiotas políticos por profissão?

2 Respostas to “A possível cura da AIDS, e seus (possíveis) efeitos colaterais sociais.”

  1. dudu, ja ouviu falar das prostitutas de Nairóbi?

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